O LABORATÓRIO

Você está pensando que eu vou falar de algum laboratório desses que estão fazendo os exames do coronavirus ou até algum que esteja pesquisando e realizando testes sobre uma possível cura ou vacina contra esse vírus disgramado que já me faz estar trancado em casa por 30 dias.

Ahá! Errou!

Vou tratar de outro tipo de laboratório, muito maior, mais complexo, vou tratar do laboratório onde nós vivemos.

Sim, nosso país é um verdadeiro laboratório onde cientistas da mais alta qualificação realizam testes, experimentos científicos, mas que raramente chegam a resultados aproveitáveis.

Senão vejamos, fomos um império na forma sem jamais termos sido imperialistas na prática. Bem, talvez um pouquinho, mas muito discretamente. Os paraguaios é que não concordam muito com isso.

Mas como ia dizendo, os cientistas não estavam muito de acordo com as pesquisas do imperador e logo depois de 70 anos, sem resultados que agradassem, mandaram a corte embora e transformaram o laboratório em uma república.

Precisamos de uma constituição!

Tá e como é que se faz isso?

Ah, a gente reúne uma turma aí e manda alguém lá para Washington, Europa, ver se aproveitamos o que eles têm por lá, parece que lá está funcionando bem.

Ok, e quem é que nós temos aí para mandar?

Tem o Ruy, ele parece bem ajeitado para essas coisas. Sabe falar bem é professor e até advogado ele é.

Hmmm, advogado? Sei não, desse pessoal tem que sempre desconfiar. Mas tudo bem se não tem outro manda ele mesmo.

Esse é o homem
E esse é o resultado da pesquisa

Passado um tempo, depois de muito estudo, os cientistas de plantão concluíram que a experiência devia ser aprimorada e testar como funcionaria uma revolta que criasse um redirecionamento nos rumos do país. Organizaram os movimentos e botaram um pampeano lá para chefiar as pesquisas. E ele não se fez de rogado, passou a tocar o negócio com dedicação e pertinácia. A coisa estava indo conforme planejado até que começou um diz que me diz prá cá, prá lá e o baixinho de saco cheio disse: Quer saber? Manda esses pesquisadores de meia tigela embora que agora quem faz as pesquisas sou eu. E fez. Inventou uma série de experimentos, CLT, código penal e outros afins.

No meio tempo teve um outro cara que começou a se achar e formou um bando que, bem antes que aquele chinês inventasse as caminhadas, o nosso caminhou, cavalgou, saqueou, matou e no fim acabou no Leblon. Arrumou uma grana com os comunistas e fez uma intentona. Deu ruim e ele teve que tirar umas férias lá no paraíso dos caras. Hoje tem um prédio lá em Porto Alegre que fizeram em homenagem aos serviços que ele prestou em prol da nação.

Enquanto isso o pequeno polegar continuou aprontando e foi longe com isso até que o pessoal se reorganizou e mandou o cara prá casa.

Essa linha de pesquisa não deu lá muito certo, vamos iniciar uma nova baseada na democracia e liberdade para ver no que vai dar.

Mas e os comunistas? Esses aí vão querer botar as manguinhas de fora e daqui a pouco tomam conta.

Pode ser, mas temos que testar de que cepa esse povo é feito.

Demorou pouco e o velhinho voltou, mas logo deram um jeito de acabar com a folia dele e o teste continuou por mais um tempo até que…

Pimba! Não deu outra! Os comunas arrumaram mais grana e ficaram mais fortes. Teve um que era vice e foi fazer uma visitinha ao companheiro chinês, aquele mesmo da caminhada. Não queriam deixar ele voltar, mas a força do experimento foi mais forte e ao final ele voltou e virou chefe. Aí deu o maior rolo.

Os milicos tiveram que entrar em cena para botar ordem na casa, mandaram os pesquisadores embora e baixaram a nova ordem.

Agora quem faz pesquisa é o setor de inteligência aqui da casa e que ninguém venha se meter de pato a ganso que nós prendemos e arrebentamos!

Foi uma pesquisa mais ortodoxa e os resultados logo começaram a aparecer. Limitações ao direito de ir e vir, imprensa livre, desde que passasse pelo chamegão do gabinete, cinema liberado depois de passar pela tesoura da dona Solange, passeata pode, mas se sair da linha vai ter cassetada. E por aí vai.

Quem não gostar que se mude para Cuba.

Tudo com muita candura.

Mas não há bem que sempre dure ou mal que nunca acabe, alguém disse isso ou parecido, sei lá.

Depois de um bom tempo os cientistas já tinham esgotado as linhas de pesquisa e desistiram do negócio. Se mandaram para a praia. Os chefes decidiram então liberar para permitir que outros grupos fizessem suas pesquisas, foi um momento conhecido como abertura lenta, gradual e segura.

Aí entrou a turminha do Sir Ney (homenagem a Millôr Fernandes) e abriu-se nova era no mundo das pesquisas. Vários grupos de pesquisa surgiram como cogumelos brotam no pasto em dia de chuva. Alguns pesquisadores até passaram a estudar com afinco alguns cogumelos. Mas, deixa isso prá lá, o importante é que novas pesquisas se iniciaram.

E, pasmem, os comunas que já deveriam estar mortos e sepultados surgiram das cinzas tal qual uma fênix e criaram seu próprio grupo de pesquisa. Em seguidinha conseguiram impor suas descobertas, dentro das regras, é claro. Teve um lá que se entusiasmou e começou a botar a mão em tudo que era cumbuca que via pela frente. Tudo em nome da ciência é claro.

Foi a gandaia total. No Alvorada fizeram um canteiro com a estrela, em Porto Alegre hastearam uma bandeira diferente lá nos altos da Duque, e seguiram testando outras hipóteses mais sofisticadas.

Provavelmente faltou um pouco de controle no laboratório porque a turma aderiu, se lambuzou com mel e néctar que era para ver no que ia dar. O mel era fake, os testes falharam e terminaram com o grupo. Parece que até hoje tem alguns pesquisadores que acreditam na volta do chefe para seguir nos experimentos.

O povo já exausto de tantos experimentos que levaram do nada a lugar nenhum resolveu criar um novo laboratório. Agora as pesquisas seriam conduzidas por um grupo de especialistas comprovadamente especiais. Chamaram um cara com voz de comando para dirigir o laboratório, falava umas coisas meio esquisitas, mas parecia ter boas intenções. Criou-se uma grande expectativa de que agora a coisa vai!

Montaram um time de primeira linha, na educação um renomado e circunspecto professor, nas relações exteriores um tipo centrado, expert em diplomacia, nos direitos humanos uma pastora cheia de ideias altruístas, o cara do meio ambiente e assim por diante. As linhas de pesquisa conduzidas pelo Fritz e o Hans. O Udacir ficou de fora porque como não tinha muitas luzes não dava certo como pesquisador, só servia para fazer número.

Tinha um lá que estava cuidando da saúde em meio a maior crise planetária mas o Fritz achou que ele estava fazendo tudo errado e o conselho diretor mandou ele procurar a turma dele.

Belo dia o chefe surtou e mandou fechar tudo.

Chega! Cansei dessa novela chocha. O povo precisa de ação, exercício e o escambau, principalmente o escambau. Vou acabar com essas besteiras de pesquisa que só servem para os intelectuais e jornalistas ficarem deitando falação para cima do povo. Esse tal de vírus é mentira, alguém já viu? Eu não. Se ele atacar passa um Flit, toma uns Fontol e pronto!